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domingo, 24 de abril de 2011

Vick Cristina Barcelona, a liberdade sexual e George Bush

Quem assistiu a Vick Cristina Barcelona, de Woody Allen, viu a sensualidade dos personagens, seus conflitos psicológicos, os interessantes diálogos, a bela trilha sonora, o ritmo ágil e leve, uma amizade resistente, a presença de um narrador da história e a  liberdade amorosa retratada. Quem assistiu Jules e Jim, de François Truffaut, viu tudo ou quase tudo isso. O novo filme de Allen lembra o de Truffaut, tanto por parecerem livros filmados, tanto por tratarem da liberdade sexual-amorosa e da vivência artística como essenciais para a humanidade.

Uma diferença importante entre as duas películas, no que diz ao significado da importância dada à questão sexual, é determinada pelas diferentes épocas de produção das obras cinematográficas. Enquanto Jules e Jim nasceu em um período de intensa e irrestrita repressão sexual, Vick Cristina Barcelona foi gerado no fim da era Bush, com todo o conservadorismo e aversão à arte que a figura do chefe da Casa Branca simboliza. Daí vem, ao meu ver, a oportunidade de uma obra que combina liberdade amorosa e amor pelas artes, nos dias atuais, de forma a ser um contraponto a uma visão materialista e puritana do mundo.

O que fazer então, além de assistir Jules e Jim e Vick Cristina Barcelona e apreciar e vivenciar as artes? Participar dos processos políticos, buscando o melhor para o país e o mundo. Com a benção dos poetas e cineastas.

Narradores de Javé

Narradores de Javé, dirigido por Eliane Caffé, é um belo filme sobre histórias e pessoas. A ação principia quando um pequeno povoado se vê numa encruzilhada: - Ter seus lares destruídos para permitir a construção de uma represa ou salvar o lugarejo, desde que provem o valor histórico da localidade. Como a cidadezinha de Javé não possui monumentos ou personagens históricos, o conjunto de “causos” do povo sobre as origens da cidade é escolhido para funcionar como justificativa para que a região seja preservada. Antonio Biá, um personagem espertalhão, vivido por José Dumont, é convocado para registrar graficamente as histórias que existem na mente e na boca das pessoas simples do lugar. A partir daí, várias situações cômicas e interessantes são construídas, todas elas evidenciando a dificuldade de transpor a oralidade para o registro escrito.

O livro que imortalizaria a “grande história javélica”, não foi escrito. E o “progresso” na sua marcha irrefreável em busca de dinheiro e poder não foi detido, estando a cidade condenada. Mas o povo de javé com sua riqueza criativa permanece. E este povo é homenageado pelo filme, de forma simpática e inteligente, sem pieguice e sem solenidades indesejáveis.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A Revolução dos Bichos, Lula, a Imprensa e o Povo

Escritor do século XX, George Orwell tratou de temas políticos vitais para sua época, mas que ainda mantêm expressiva atualidade. Uma das suas principais obras, A Revolução dos Bichos, é uma alegoria do Socialismo Real, em que bichos de uma fazenda revoltados com a tirania dos humanos lutam pela tomada do poder sendo guiados pelos porcos.No fim da história os animais triunfam e se libertam da opressão humana, porém passam a ser explorados pelos suínos. O final da narrativa é de um simbolismo impressionante, com os líderes porcos se encontrando com seres humanos de outra fazenda, apresentando rostos com feições humanas.

Porém este grande livro de Orwell é uma obra por demais fecunda e certamente não perde sua importância com o fim do socialismo. Nos dias de hoje assistimos ao governo Lula, a divisão da esquerda que o apoiava, entre fiéis e dissidentes, a mídia beligerante, também divida entre pró e contra o lulismo e o restante da população, a qual, talvez impropriamente, chamaremos de povo, aparentando distanciamento do cenário político brasileiro.

Serão o PT e os seus membros os nossos porcos? Pois se eles chegaram ao poder com a promessa de mudar a forma de governar e seguiram a mesma trilha do PSDB, com poucas diferenças. E a nossa esquerda que apostou em Lula? Com certeza, esta esquerda precisa  aprender esta lição de humildade e se dar conta que não é um homem e um partido no poder que vão solucionar os problemas complexos e seculares de nosso país, todos motivados por nossa terrível desigualdade social. E a imprensa? Será a nossa guardiã da ética? Podemos confiar neste jornalismo que aí está? Lamentalvemente também devemos responder negativamente a estas duas perguntas, uma vez que a imprensa usa da manipulação da informação para atender a interesses dos donos dos veículos de informação.

O experiente jornalista Paulo Henrique Amorim, em seu blog, aprecia usar a sigla PIG que no contexto significa Partido da Imprensa Golpista, ou seja o conjunto de órgãos de jornalismo contrários ao governo de Luís Inácio.Certamente em veículos midiáticos poderosos, como Editora Abril, Organizações Globo etc, encontramos uma forte e desonesta oposição a Lula, com toda sorte de manipulação de informações.Por outro lado será que não poderíamos falar de outro PIG, de tendência oposta, o Partido da Imprensa Governista, representado por Paulo Henrique Amorim, Carta Capital,Caros Amigos, entre outros jornalistas, revistas e endereços eletrônicos que defendem o governo Lula ,silenciando os seus equívocos, enaltecendo os seus acertos e atacando os seus adversários.
Certamente o leitor sabe que Pig é a palavra inglesa para porco e o inglês é o idioma do britânico Orwell e esta coincidência nos permite o atrevimento de estender a analogia de A Revolução dos Bichos para a nossa mídia, com os nossos porcos, tantos os golpistas, quanto os governistas querendo nos conduzir de forma a que possamos ser mais úteis aos seus interesses, isto é na posição de alienados consumistas, crentes em meias verdades.

Mas o que fazer em face desta realidade? Se o PT se alia ao PSDB nas eleições municipais de Belo Horizonte, permanecendo como inimigos no restante do país, que conclusão podemos tirar? Certamente não podemos esperar uma revolução pela via eleitoral, porque a eleição de um candidato é constituída de alianças , que fortalecem as candidaturas, mas deixam os detentores do poder na obrigação de servirem a interesses de pequenos grupos, negligenciando o bem da nação como um todo. Para governar o presidente operário se aliou ao PL, ao PMDB de José Sarney e apoiou a candidatura ao Senado de Newton Cardoso, entre outros lances do jogo político.

A situação é desesperadora, porém ainda existem aqueles que pensam em alternativas .Em sua edição de julho de 2008, a revista Caros Amigos, traz uma entrevista com o advogado Ricardo Gebrim, membro da Coodernação Nacional da Consulta Popular, órgão ligado ao MST. Na conversa com o jornalista José Arbex, o entrevistado discorre sobre a divisão da esquerda brasileira entre os desiludidos com Lula e os que ainda confiam em seu governo e sobre a necessidade de um rompimento com a “centralidade eleitoral”, ou seja a tentativa de transformação unicamente através do voto e que ao invés disto haja a mobilização e a conscientização das camadas populares através da vivência de projetos de interesse social e do contato com literatura marxista. Sem conhecer o trabalho da Consulta Popular (CP) não podemos afirmar se os resultados obtidos ali são profícuos, porém é interessante que aproveitemos a idéia de que é necessário levar uma boa formação às massas para  que o povo não mais seja “bicho da fazenda” conduzido pelos porcos orwellianos, tanto os esquerdistas quanto os direitistas.

Discordo de petistas e tucanos

Marcos Bagno em recente artigo publicado na revista Carta Capital, intitulado "Presidenta, sim"  posicionou- se a favor da utilização da forma 'presidenta' em detrimento de 'presidente', porque temos uma chefe de Estado mulher e desta forma estaríamos dando o justo tratamento a uma representante do sexo feminino. O linguista da UNB principia sua argumentação com o exemplo de que se uma mulher e um cachorro fossem atropelados, os jornais noticiariam que 'eles' foram atropelados. Para o referido autor tal fato se constituiria em preconceito contra gênero incrustado na língua por uma sociedade tradicionalmente machista.
Realmente nossa cultura é machista, mas não creio que o uso da forma 'presidenta' vai resolver este grave problema. Bagno diz que o fato de um cachorro e uma mulher serem citados no plural faria algo como desumanizar a mulher. Talvez, mas não sei. Poderia-se argumentar que neste caso a língua está sendo neutra, não estabelecendo hierarquia entre animais e seres humanos. E por falar em animais, vemos os casos em que a língua portuguesa tomou o caminho de designar a espécie no feminino: as cobras, as baratas, as tartarugas, as abelhas etc. . E para não ficarmos apenas em exemplos extraídos da fauna, examinemos o termo criança, que designa, geralmente, seres humanos bastante jovens, antes de entrarem na adolescência, e que é uma palavra do gênero feminino. De fato, escrevemos e falamos 'as crianças', mesmo se todos os indivíduos aos quais queremos nos referir sejam do sexo masculino. Não acredito que estes tipos de designação sejam atos que denotem feminismo.
Bagno , neste artigo da Carta Capital, não esconde sua preferência ideológica pelo PT, ao criticar asperamente Serra e Marina e ao enaltecer a eleição de Dilma. E creio que é neste plano do ideológico e não do linguístico que esta polêmica, em torno da forma 'presidenta' ,se desenrola. Partidários do governo, políticos ou não, entram no coro da forma 'presidenta', que é uma maneira de Dilma valorizar a sua condição de mulher eleita para um cargo tão importante, mas também de aumentar o seu prestígio como figura pública. Os oposicionistas, na política ou na imprensa, defendem a manutenção do tratamento 'a presidente', porque o vocábulo terminado com 'a' seria uma agressão petista a língua portuguesa. Mas os que eles querem conter, de fato, é a aprovação popular à Roussef.
Para além do ideológico, penso que se as duas formas, 'presidenta e presidente', para designar uma chefe de Estado ,ou de uma instituição qualquer,  do sexo feminino são possivéis dentro do sistema de formação de palavras da língua portuguesa, isto implica que os falantes podem optar por aquela que achar melhor, sem por isso terem que ser tachados de destruidores do idioma ou de machistas. E se as duas já citadas formas são abonadas por gramáticas e dicionários, como disseram o próprio Bagno e Sírio Possenti,acredito que ambas podem ser utilizadas em textos formais, ao gosto do produtor destes textos.
O uso dos falantes e escritores, dirá qual forma se consagrará e ou se as duas coexistirão. Não acredito em quem diz que se usarmos 'presidenta' acabaremos usando 'estudanta', 'gerenta' e coisas do gênero. A língua segue os seus caminhos , consagra usos e exclui outros. 'Embaixatriz ' não obriga ninguém a dizer 'doutortriz'.
A eleição de uma mulher para presidente é certamente um evento simbólico importantíssimo. Dilma pode ser um estímulo para as mulheres, assim como Obama para os negros e Lula para os proletários. Mas só o simbólico não basta. O Brasil precisa de uma política concreta de valorização da mulher, com investimentos em  saúde pública em todos os campos da medicina , mas em especial na ginecologia e obstretícia, com uma educação pública de qualidade, deste o ensino infantil até a pós-graduação, e com o combate á discriminação por gênero sendo tratado como tema transversal nas diferentes disciplinas, combate à miséria e a falta de informação, combate a violência doméstica, uma aplicação efetiva da lei Maria da Penha, coisas deste tipo, que trazem impactos significativos na sociedade. Bem mais significativos, pelo menos, do que uma mera mudança de letra, ou fonema,na terminação de uma palavra.
Texto de Marcos Bagno disponível em: http://www.cartacapital.com.br/politica/presidenta-sim

domingo, 17 de abril de 2011

A revolta dos ajudantes de Papai Noel-inacabado

Dezembro, mês do Natal. No Pólo Norte, mais precisamente nas propriedades do poderoso Papai Noel trabalha-se intensamente na produção de presentes que serão comercializados nas lojas do mundo inteiro. Embora exista o mito de que Papai Noel seja um filantropo, na realidade o bom velhinho não passa de uma engrenagem do sistema capitalista.
O período natalino é a época de ouro do consumo. O sentido religioso da festividade está praticamente esquecido. Sai o Menino Jesus, venera-se Santa Claus. A publicidade propaga o consumismo e os pais atacam as lojas. Para que este roteiro não falhe, é imprescindível que as casas comerciais estejam devidamente abastecidas de produtos. E é para que a comédia natalina não saia de cartaz que trabalham os duendes, os ajudantes de Papai Noel, sem renumeração, sem férias, sem convênio médico, sem vale alimentação e outros benefícios trabalhistas.
O estágio atual da nossa civilização repudia o trabalho escravo. Entretanto, na temível e gigantesca fábrica do Papai Noel milhares e milhares de duendes trabalham incessantemente na produção de brinquedos, aparelhos eletrônicos e outras quinquilharias que funcionarão como presentes natalinos pelo mundo todo. Os cidadãos, confortáveis em suas residências, nem desconfiam das condições desumanas de trabalho a que os inocentes estão submetidos.
Papai Noel, ardiloso negociador, obteve junto à Organização Mundial do Comércio direito de exclusividade no abastecimento de produtos para o Natal. O que significa muito dinheiro para o bom velhinho e muita opressão para os dóceis duendes.A mão de obra não renumerada dos ajudantes de Papai Noel garante uma ótima margem de lucros

A revolução em marcha-fragmento

A reunião


   Naquele primeiro de janeiro de 1961 estávamos na casa de Juan Manoel de Mayo, nosso supremo líder desde o princípio. Ele fumava charutos copiosamente e dizia que deveríamos destruir o capitalismo no mundo e assegurar um futuro sem injustiça e sem opressão para nossos filhos e netos. Um médico argentino também marcou presença na reunião e afirmava que para que a humanidade conhecesse a verdadeira paz era necessário fuzilar, fuzilar e seguir fuzilando. Havia uma bela garota, de cabelos negros e com jeito de já ter lido todos os livros e de só ter gostado de O Capital. Estes três comandavam uma erudita conversação sobre tomada de poder, mas eu juro que não imaginava que eles falavam sério. Demorei a entender que luta armada não era uma metáfora para relação sexual.
   Eu só estava nesta reunião porque meu amigo Joaquim tinha me convidado. Nós dois éramos os representantes do Brasil naquela verdadeira constelação de jovens inteligências latino-americanas. Joaquim foi o culpado desde o princípio. Quando ele me convidou para conhecer a América Latina, em minha inocência, achei que o nosso único objetivo era conquistar bonecas hablantes de castelhano, nos valendo do nosso irresistível charme brasileiro. Na volta para nossa pensão, dialogando com o enigmático Joaquim é que consegui entender parte do  funesto plano, que nos deixará em péssimos lençóis: 
 _ As autoridades do Partido querem estender a revolução para toda a América Latina e o Brasil é a peça-chave. Da conquista do Brasil a uma América Latina socialista é um passo.
   _ Mas o que nós temos a ver com isso?- perguntei rispidamente.
   _ Nós estamos na guerrilha. Nos comprometemos a participar da luta pela conquista da primeira cidade brasileira.
    _ Estes “nós” abrange quais pessoas?
   _ Você, eu e todo mundo que participou daquela reunião.
   _ Mas, porém, seguramente, a participação das pessoas que compunham aquela brilhante tertúlia será de natureza intelectual, ficando os confrontos físicos reservados a indivíduos de menor estatura mental- ponderei entre desesperado e esperançoso.
   _ De forma alguma, meu caro Jorge. As sociedades opressoras sempre se fundamentaram na divisão entre o trabalho físico e intelectual. Veja o exemplo da Grécia Antiga, o berço da democracia e da filosofia ocidental, mas que era sustentada pelo trabalho escravo. Se queremos construir uma sociedade nova, justa e igualitária, precisamos que intelectuais e trabalhadores se unam no projeto de derrubada do sistema capitalista. Não é porque cursamos Universidade que vamos deixar de por a mão na massa.
   _Resumindo, nós vamos pegar em armas, matar pessoas e correr risco de morrer.
   _Sim... Prosaicamente falando, faremos isto sim. Mas você deve sempre ter em mente que estamos lutando pelo Ideal maior, O Grande Sonho do Comunismo.
   _ Mas Joaquim, e se eu não quiser?
   _Mas como você pode não querer, Jorge, se você é meu irmão espiritual e sempre estivemos juntos em tudo? disse Joaquim ao mesmo tempo que me abraçava.
   Respondi a última fala de Joaquim com um monossílabo qualquer e não sei porque aceitei o estúpido argumento dele. Tudo o que sei é que por esta altura já havíamos chegado em nossa humilde pensão. Cumprimentamos a dona do estabelecimento: Buenas noches, Buenas noches. Subimos para o nosso dormitório e na parte de cima da beliche tive um horrendo pesadelo, que devo narrar o mais fielmente possível para revelar á humanidade o terrível sofrimento psicológico que a iminência da guerra pode causar em almas sensíveis:
O sonho

   Eu era um soldado e estava envolvido em uma sangrenta batalha. Pelejava com denodo. Provocava incontáveis baixas no exército adversário. Até que me vi frente a frente com uma mulher, uma oficial das hostes inimigas. Ela era de extraordinária beleza. Pancadas fortes no meu coração. Era meu dever matá-la, mas minha alma dizia não. Ela poderia ser a mulher da minha vida, a mãe de meus rebentos e estava ali ferida, desarmada, vestida com a roupa do lado inimigo. Por fim, a obrigação cívica triunfou e matei o meu amor.
De repente, eu estava em outro cenário. Estava sendo condecorado. Recebia a justa premiação por ter me portado valentemente nos embates. Mas não podia me olvidar que havia matado meu anjo. Eis que uma mulher alta e loura me observa. O general nos apresenta e diz que devemos nos unir pelo bem da revolução. Passamos a morar, minha esposa e eu, em uma cidade que nevava o dia todo. Ninguém poderia transitar livremente pelas ruas, pois todos os que tentavam transformavam-se em blocos de gelo.Minha cônjuge e eu passávamos dias inteiros tendo que produzir artigos em defesa do regime. Tinhámos que atacar o capitalismo e nunca fazíamos amor. Eu tentei diversas vezes, porém ela dizia que era necessário trabalhar pela revolução, que não existíamos como indíviduos, mas sim como peças de um projeto coletivo e que era urgente destruir, até a raiz, o pensamento burguês. Entretanto, realmente, eu sentia falta de um pouco de diversão. Nossa
 vida conjugal se resumia em trabalho, trabalho e mais trabalho.
   Tudo prosseguia na santa monotonia, até o fatídico dia em que vieram os tanques. Os soldados falavam em inglês e destruíram nossa cidade. No lugar, construíram uma filial da terra de Disney.
De volta à “realidade”

   Acordei banhado em suor. Felizmente estava com meu pijama listrado e não com a fantasia do Pato Donald. De fato, não sei o que é pior, se a Disneylândia ou se o laborioso projeto em benefício da Revolução. O relógio marcava seis da madrugada. Joaquim me informou que era preciso levantar, arrumar e partir para o aeroporto. Iríamos para Minas Gerais, dar nossa contribuição para o projeto revolucionário. Era preciso ser guerrilheiro, modificar radicalmente as formas de produção, instaurar a ditadura do proletariado. Mas viver, dormir, aproveitar a vida, contemplar, o céu, o sol, o mar, não é preciso.
   Dialogando com Joaquim a caminho do aeroporto tive acesso a mais pormenores da nossa missão:
   _Meu caro Jorge, chegaremos a Belo Horizonte e lá tomaremos um ônibus que nos levará para a cidade que iremos conquistar, Entrada do Paraíso.
   _Entrada do Paraíso, mas de onde vem o nome desta cidade? Por acaso é ela um importante centro de peregrinação religiosa?
   _ Não, creio que a cidade é centro de algo exatamente contrário à religião... Não é o momento para pensarmos em questões de toponímia, meu nobre amigo. Mas se você insiste em saber a explicação para o nome da localidade que a Revolução determinou que conquistássemos,  posso te apresentar uma hipótese: a denominação de Entrada do Paraíso se explica pelo fato de ser lá que se iniciará o processo revolucionário no Brasil.
   _Hipótese fantasiosa, a realidade é outra.
   _Talvez seja, mas que me importa a realidade atual do mundo? O que interessa é transformar a realidade.  
   _ O marxismo se parece com uma religião, com promessas de paraísos...
   _ Pode ser, todavia o paraíso  do marxismo se conquistará com a luta do povo oprimido e não com a benevolência de um deus tirânico.
   _Mas Joaquim, chegando ao Brasil e à cidade de Entrada do Paraíso, como iremos proceder?
   _Ótimo questionamento, meu caro amigo. Chegando à Entrada...
   _ Espere, você pode falar destas coisas, assim no meio da rua?
  _ Oh, não se preocupe Jorge. Estamos em pleno território revolucionário. Olhe para esta gente, todos escrevem conjuntamente o belo poema da Revolução...
   Olhei para a gente... Um povo sofrido, acotovelando-se nas vias do centro da capital, fazendo fila para comprar alimentos nos postos estatais, lotando os veículos de transporte público a caminho de mais um estafante dia de trabalho. Haverá realmente diferença, profunda e substancial, entre um povo submetido a um regime com pretensões socialistas e um de um país francamente capitalista. Certamente os meios de produção mudam, a forma de governar, as relações sociais mudam, mas não creio que a opressão venha a ser extinta. Mas talvez Joaquim tenha razão... Provavelmente o projeto deste país, em longo prazo, venha gerar frutos realmente positivos e as desigualdades sociais sofram uma redução significativa. Mas para que este êxito seja alcançado é indispensável que os puritanos do Norte deixem esta pequena ilha em paz. Se , ao menos, ao invés dos espiões da CIA, eles nos mandassem as Marilyns and Graces...
─O nosso avião chegou, Jorge. Vamos rumo á revolução.
__Pelo meu atual estado psicológico gostaria imensamente que revolução fosse um nome de uma animada boate.
De volta a pátria
Não posso acredita que voltei  ao meu país!O Brasil é verdadeiramente uma terra estupenda. Minha vasta experiência internacional, adquirida naquela minúscula ilha caribenha e socialista, permite-me afirmar que a nação verde e amarela possui a supremacia planetária. Afinal, em que em outro lugar do mundo se pode ligar o rádio e ouvir os astros de rock americano.Ou ir ao cinema e ver as grandes produções de Holywood. Quando assisti Os Dez Mandamentos e Ben Hur me encantei com a figura de Charlton Heston de tal forma que me converti ao protestantismo e comprei um rifle. Mas estas duas experiências não me trazem boas recordações. Mas voltando ao meu delírio ufanista totalmente infundado e sem nenhuma utilidade para a progressão deste relato, não posso me esquecer de citar a mulher brasileira. Simplesmente a mais bela do globo terrestre, tão cantada em verso e em prosa pelos melhores poetas e cafajestes. As nossas fêmeas são extremamente sensuais, estão sempre propensas ao sexo, pelo menos nas palavras daquele agente de turismo alemão. Mas eu devo discordar, porque do alto da minha experiência de quem só consegue companhia feminina quando vai à bordeus... Mas deixemos de confissões embaraçosas e voltemos às efusivas demonstrações de amor pátrio. Somos