Pesquisa

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Jardim do polvo

Oito braços que semearam  If I Fell, Yesterday, Here Comes the Sun, Because e outras rosas.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Preguiça

Um poema preguiçoso
Sem consulta ao dicionário de rimas
Sem métrica, sem diálogo com
A POESIA OCIDENTAL
OU COM OS ESTUDOS CULTURAIS

Um quase aborto, sem alma,
Sem iluminar os desesperançados.
Sem receber o Ok dos intelectuais.

Ele persiste.
Quer ser parido.
Quer dizer algo, ainda que este algo não seja coisa nenhuma.
Ainda que seja como um sermão de Father McKenzie
Ecoando no deserto daqueles que ouvem funk com fone de ouvido.

Ele é o outro lado da moeda do silêncio
Ele é o não desistir
Ele é a pílula anticoncepcional para desejos suicidas.

Ainda que preguiçoso
Ainda que não abençoado pelas musas
Ainda que severino
Ainda que gauche
Ainda que carente de engenho e arte

Ainda assim

poema...?

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O menino na terra dos gigantes



Primeiro capítulo: a queda

Fernando era um menino muito querido pelos pais. A mãe de Fernando, dona Francisca, era muito preocupada com o filho e estava sempre dizendo:

__Menino, não se afaste muito de casa.

Mas Fernando gosta muito de se aventurar. De sair pelas ruas para ver como é o mundo.Um certo dia, ele encontrou um lote abandonado. Resolveu entrar e ver o que havia lá. O mato estava muito alto. Fernando foi andando pelo lote, até que pisou em falso e começou a cair. Estava caindo em um poço. Fernando permaneceu caindo durante muito tempo.

Segundo capítulo: Na terra dos gigantes

Fernando parou de cair e se viu em uma grande área verde. Em sua volta, ele via árvores que chegavam até as nuvens. De repente ele ouviu um grande barulho!

Era um desfile de pessoas. Mas de pessoas enormes! Muitas pessoas, cujas cabeças quase tocavam nas nuvens. Fernando ficou muito assustado e quis correr dali.

Mas um gigante pegou Fernando pela mão e disse:

__Oba, achei meu café da manhã.

Fernando ficou assustado. Quis se livrar do gigante. Mas o homem era mil vezes mais forte que ele. Tentou gritar socorro, mas sua voz soava fraca naquele lugar de pessoas gigantescas.

Terceiro capítulo: Café da manhã do gigante

O gigante amarrou Fernando com uma corda em sua mesa e foi buscar uma faca. Ele dizia.

__Oba, oba, vou comer um aperitivo!

Fernando teve muito medo e começou a rezar. O gigante comilão voltou da cozinha com uma faca brilhante.

Quarto capítulo: João Grandão

O gigante aproximou a faca do corpinho de Fernando quando ouviu umas pancadas na porta. Foi atender e viu alguém de que quem ele não gostava.

Era outro gigante, maior e mais forte que ele. O gigante visitante disse:

__Eu vi você entrando com um humano. Você sabe, Joaquim, que a caça aos humanos está proibida, porque eles estão em extinção.

__Eu não cacei o humano, eu o achei deitado no chão. João, não se meta em minha vida.

__É proibido comer os humanos, você sabe disso. Eu vou pegar o humano. E não tente reagir, se não eu vou ter que bater em você.

Joaquim, o gigante que queria comer Fernando tinha muito medo do outro gigante e por isso deixou que ele levasse o menino.

Capítulo quinto: O caminho de volta

João, o gigante bondoso, pegou Fernando pela mão, de forma que não o machucava e disse:

__Não se preocupe humaninho, vou te levar de volta para casa.

Fernando confiava nele.

Os dois passaram por um caminho diferente. Fernando nunca havia visto flores tão belas, nem árvores com frutos tão gostosos quanto viu naquele caminho de volta. Nem animaizinhos tão graciosos. Pássaros faziam sons lindos.

Fernando pegou muitas flores para dar para a mãe. E como brincou com o gigante! Nadaram no rio juntos.Porém, o melhor foi andar em cavalo marinho. Fernando nem viu o tempo passar.

Seguiram caminhando, vendo coisas belas e conversando como velhos amigos. Até que sem saber como, Fernando se viu no quintal da casa dele. Viu a mãe e o pai sentados na varanda, com caras tristes e preocupadas.

Fernando olhou para o gigante e perguntou:

__João Grandão, por que meus pais estão tristes?

__Eles estão preocupados com o seu sumiço. Agora vá até ele e lembre-se que não chegou o tempo de você ir para a terra dos gigantes.

Fernando se despediu de João abraçando o sapato dele e correu até a mãe e o pai. Os dois não conseguiam acreditar no que viam. A mãe queria brigar com o filho, mas perdeu a vontade quando ele mostrou uma flor linda e cheirosa para ela, dizendo:

__É para você, mamãe.

 

 

 

 

domingo, 21 de outubro de 2012

A procissão dos desesperançados

Caminhavam os homens e mulheres pela cidade sem luz. Não havia esperança, nem profetas que conheciam outros caminhos. Ninguém tocava música nas estradas. Poetas não se manifestavam. Algo talvez pudesse acontecer que impedisse que aquelas criaturas caissem no abismo! Se o autor deste relato pudesse ficcionalizar e tivesse criatividade para isso, algo aconteceria: as estrelas embelezariam a noite ou quem sabe os galos soltassem a voz. Mas tudo é silencio, desesperança, copos vazios, chaves sem porta, se ao menos algum deles soubesse o poema E agora José, mas tudo é vazio, desespero. Eu que vos narro tenho que me juntar à procissão desesperada. Os leitores se quedam sem notícias dos que desistiram. Oxalá, jamais se juntem a nós.

Se fosse poeta

Se fosse poeta
As manhãs não seriam tão cinzas
As chuvas não lembrariam tanto o fim do mundo.
O letrista de rock canta a garota, o automóvel, a incompreensão e a liberdade e é amado por milhões.
O poeta intelectual dialoga com teóricos e supera os predecessores.
Quanto a mim, por que me coube ser Quasímodo?
Por que os versos das lamentações de Jó são os únicos que me dizem respeito?
Só conheço desta vida a prosa, seca e envenenada.
A poesia é algo que está numa névoa distante.

Migração

As aves agourentas também migram.

sábado, 20 de outubro de 2012

Quando

Quando não adiantar ouvir Let it be
Quando os galos estiverem mudos
Quando as noites forem de trabalho
Quando  tiveres decorado o terceiro capítulo do livro de Jó
Conte comigo.
Não entendo de viagens ou de automóveis
Porém sei o que sentes.

Histórias que levam além


 Minha avó sempre me contava histórias de outros tempos e outros mundos. Adorava as
dos gênios das lâmpadas, que, libertos depois de séculos, colocavam em ação todo o seu
potencial criativo. Um dia, um tio carrancudo disse que minha avó havia morrido. Desde esse
dia, estou preso na minha lâmpada.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O ressuscitado- projeto

Estavam todos os seus familiares e conhecidos em seu enterro. Ninguém imaginava que ele morreria tão cedo. Foi um ataque cardíaco fulminante.Subitamente, levantou-se, espreguiçou-se e disse:
_Voltei, estava equivocado em morrer. Não era a hora de desistir.

sábado, 25 de agosto de 2012

Betinha


Ele passeava sozinho por sua nova e imensa moradia. Era o futebolista do momento. Com apenas 21 anos era considerado por muitos como o melhor do mundo, estrelava diversas campanhas publicitárias e para permanecer no Brasil assinara um dos mais generosos contratos da atualidade.
Estava no auge, mas ambicionava mais e mais. Porém não conseguia esquecer o passado de garoto pobre, que passava por privações. Mas precisava esquecer. Precisava aproveitar intensamente o dinheiro que possuía e viver a vida ao máximo.
Naquele dia transitava pelos cômodos de sua recém adquirida propriedade, pensando em como mobiliaria. Teria que ser uma residência confortável e que mostrasse a todos que hoje ele podia comprar o que quisesse. Pensava em móveis e eletrodomésticos luxuosos, até que vislumbrou a Aparição!
Betinha, a sua primeira namorada, a garota que o amava antes da fama, morta há cinco anos em um acidente automobilístico , estava no banheiro social de seu apartamento...
O primeiro impulso do craque foi gritar. Mas sua voz não chegou até a boca. Ficou paralisado, imaginando que sonhava. Foi o fantasma quem quebrou o silêncio:
__Olá, Armandinho. Não fique com medo. Não vim te fazer mal. Não sou perigosa. Sou apenas um espírito que obteve permissão para se comunicar com os vivos. E a razão de eu estar aqui é que você anda meio desorientado, meu querido.
__Mas, isto só pode ser armação. -Armandinho finalmente conseguiu falar, ainda trêmulo de medo.__Você não pode ser Betinha. Ela está morta e enterrada, faz muitos anos.
__Pois foi o que eu disse. Eu morri, mas permaneci acompanhando a sua vida. E obtive licença para me comunicar com você, para te dar uns bons conselhos...
__Não preciso de conselhos. Estou muito bem. Tenho dinheiro, amigos, muitas mulheres e além do mais não acredito nesta história maluca...
Armandinho sabia que a moça na sua frente hoje era idêntica a sua antiga namorada falecida, mas se recusava a crer. Beslicou-se  para constatar se estava sonhando... Deveria ser um disfarce, talvez uma irmã gêmea desconhecida que agora tentava se aproveitar da riqueza dele...O jovem príncipe do futebol tentou tocar a garota misteriosa, mas sentiu que sua mão atravessava o corpo dela! Meu Deus, ela era um fantasma de verdade!
__Armandinho, eu sou Elizabeth Maria Martins da Silva, vulgo Betinha, o seu primeiro amor. Conheço vários segredos seus. Quem mais saberia que você falhou em nossa primeira vez...
__Mas é que eu estava cansado, por causa daquele jogo do campeonato juvenil...

__Eu sei disso muito bem. E não me importo. Só o que eu quero é que você confie em mim. Eu não tenho muito tempo para ficar. Depois vou ter que enfrentar de nova toda aquela burocracia espiritual para voltar a te encontrar. Eu quero que você me ouça com muita atenção. Se quando eu era viva já era uma moça sensata, hoje em dia eu estou muito mais lúcida. Você não faz ideia de que como nós, os mortos, somos mais sábios do que vocês, os vivos.
___Pois então, fale.-Armandinho falou, enquanto se sentava no chão. Betinha permaneceu em pé. Ela deve ser imune ao cansaço, atualmente.
__Pois bem. Você está muito preocupado, com bens materiais. Acredite, isto não é balela,  ter coisas caras não é o mais importante. Eu sei bem como isto é passageiro. Hoje você tem muito dinheiro, mas amanhã você estará do lado de cá e tudo o que importará é ter paz de espírito. Você deve usar a sua grana para ajudar a sua família e as pessoas pobres. É claro que você deve se divertir, mas sem cometer excessos. Fuja das drogas e do excesso de álcool. Não tenha uma mulher por noite, encontre uma com quem possa ter uma relação saudável e bonita. Eu, infelizmente, estou fora do páreo. Mas existem muitas boas moças por aí. Não pense que a fama o faz melhor que os outros. Ligue para sua mãe e a leve para passear. Cultive o intelecto, leia bons livros, vá ao cinema. E em campo jogue limpo. Procure vencer sem se perder.
___Betinha, eu vou pensar no que você disse. Eu senti muito sua falta. Fique comigo para sempre. Eu preciso de seus conselhos.
__Sinto muito, querido. Eu não posso mais ficar. Quem coordena estas idas e vindas dos espíritos desencarnados é o Arcanjo Gabriel e ele é muito caxias. Mas vou tentar voltar novamente. Me desculpe por não te dar um beijo e um abraço de despedida. No estado em que me encontro, não posso entrar na lista das mulheres mais calorosas. Tchau, até quando eu puder voltar... Tá bom, Gabriel eu já entendi que o meu prazo se esgotou!
Armandinho ficou ainda mais perplexo! Betinha evaporou-se diante dos seus olhos. Ele se pôs a pensar naquele inacreditável acontecimento e nos conselhos de Betinha...Ela queria o bem dele, mesmo depois de morta.
De repente, o Sobrenatural voltou a se meter no caminho dele...
Seu amigo de infância, Betão, morto e enterrado há 4 anos, quando tentava assaltar um banco com mais 3 comparsas. Betão, o adorável bad boy, o rapaz sem limites. Voltou do mundo dos mortos. Isto está parecendo uma novela mexicana, pensou Armandinho.
__E aí ,Armandinho? Vejo que você tá muito parado. Por isso burlei o sistema espiritual e vim te fazer uma visitinha, para te dar uns toques. Você com toda essa grana e juventude, tá deixando a vida passar. Eu sei muito bem como a vida é passageira. Cadê as orgias, as festas de arromba, o seu carro já tem três meses, ou seja, tá velho. Compra um iate, enche de mulher, bebida e drogas, curte a vida. Compra um jatinho, enche de mulher e de todo o resto. Só se vive uma vez. Aproveita, mané!
Armandinho ficou confuso...




 

Entrevista

_Esta noite temos um grande convidado, o grande psicanalista...
_Terapeuta!
_Terapeuta...Mas estava previsto... Bem senhor, Luiz Fernando Dias ...
_Luiz Fernandes Dias!
_O senhor não é o entrevistado previsto para o nosso programa.
_E daí?
_E daí que este é um programa sério, com pauta definida e que conta com a presença de grandes intelectuais, de personalidades muito importantes.
_Mas eu sou o entrevistado de hoje. Sou terapeuta, especializado no tratamento de pessoas que não lidam bem com situações imprevistas, daquelas que fogem á rotina.
_Mas isto é um absurdo! Este é um programa de televisão sério, não é um circo! Diretor, diretor!
_Mas o que você tem contra o circo, é bastante divertido, cheio de atrações surpreendentes...
_Eu detesto o circo! E não estou gostando nada desta situação. Diretor, retire este intruso de nosso palco imediatamente.
_Você está louco. Estamos batendo nosso recorde de audiência. Pela primeira vez alcançamos um ponto de audiência.
_È como eu sempre digo, caro entrevistador, situações surpreendentes são ótimas, dão gás a nossas vidas. Você não deve ter medo do imprevisto, do novo, do inesperado, do não rotineiro. A vida deve ser uma aventura, em que nós devemos estar sempre abertos ao novo, ao diferente, ao inusitado...
_Você está destruindo um planejamento cuidadosamente elaborado.
_E o que importa. O que importa é viver a vida com coragem e alegria. Vamos lá, você que gosta de fazer indagações a outras pessoas, esta noite terá que responder: Você é casado?
_Sou casado, tenho uma relação extremamente sólida com minha esposa...
_Vocês fazem sexo selvagem ou só o convencional?
_Ora, sua pergunta é ultrajante!
_Você tem relações extraconjugais?
_?!
_Já teve relações com pessoas do mesmo sexo?
_?!
_A vida está aí para ser experimentada, meu caro. Eu, por exemplo, já me relacionei sexualmente com diversos tipos de seres, e posso garantir que nada supera as ovelhas de minha infância rural...Mas não cesso de experimentar. Como sempre digo, situações inesperadas são ótimas, dão gás a nossas vidas. Pois vejamos o que você disse sobre só entrevistar intelectuais: já pensou em convidar uma coelhinha da Playboy?
_Não...Obviamente não! Mas agora temos que interromper o programa para uma mensagem de nosso patrocinador, a Playboy...bem, digo, a Livraria Cultura Essencial. Voltaremos em instantes.