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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Caos urbano

Esperou durante muito tempo pela Grande Revelação. Desafortunadamente, o trânsito o impediu de assistir ao capítulo da telenovela.

Inspiração

Era um poeta que escrevia o que ouvia da boca dos anjos. Infelizmente, muito se perdia na tradução para língua dos homens.

domingo, 18 de agosto de 2013

O mundo dos seres mutilados

Naquele mundo, naquela galáxia distante de nós, os seres eram todos incompletos. Os cães possuíam três pernas, os crocodilos não tinham cauda, os bois não mugiam, os humanos não tinham braços e assim por diante.
Tudo porque o Criador daquele planeta, não conseguia terminar suas obras. Era um deus problemático, que iniciava os trabalhos, porém não os concluía.
Um dia, o Criador daquele mundo sentiu uma forte depressão, por se sentir um deus incapaz. Os outros deuses zombavam dele, nas convenções dos Seres Supremos.Além disso, ele julgava que o mundo, criado por ele, era feio e triste.
Sentado numa sarjeta de seu mundo incompleto, o demiurgo foi abordado por um mendigo, que naquela terra inacabada não tinha mãos para recolher as esmolas. O pedinte disse:
_Por que está triste, forasteiro?
_Porque sou um criador frustrado, não consigo completar as minhas obras. Todas as minhas criaturas são seres mutilados.
_Mas quem é perfeito?
_Ora, os deuses de outros mundos criam muitas criaturas completas, perfeitas, seres humanos com cabeça, troncos e membros, tigres com caudas, pelos e presas mortais e assim por diante.
_Mas eles lá têm mais partes que nós e nós temos menos que eles e isso que é bonito. Porque os mundos são diferentes e os viajantes, os que podem, vão por aí e descobrem coisas diferentes, nem melhores e nem piores, mas diferentes!
O deus daquele mundo sentiu-se como iluminado e voltou para o seu ateliê de Criação, continuando os trabalhos “incompletos” e rezando para que aquele mendigo tenha razão.

O pianista

O pianista quando toca enche de azul os céus,transforma o Infinito em melodia, civiliza os ódios, torna audível a fala dos anjos, semeia árvores e amores, purifica mares, vence a morte, reinventa a vida, reconstrói a escada de Jacó...
Entretanto, o pianista em sua vida privada é um homem duro e inflexível, que despreza a vida e a humanidade. (Porém, ás vezes chora na solidão)
Ah! Mas quando toca...

sábado, 10 de agosto de 2013

O jardineiro

O poeta canta os jardins, as flores, as borboletas, os perfumes...
O jardineiro trabalha cuidando de jardins alheios, trabalha muito, ganha pouco, é analfabeto e não conhece a Poesia. Mora longe e sempre chega em casa exausto. ( Mas sonha que seu neto será Doutor e poderá ler todos os Livros do Mundo)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Por que escrever?


Alguém já disse que escrevemos para sermos amados. Mas o que escrevemos pode desagradar a muita gente, inclusive a nós mesmos. Os professores da área de Letras nos dizem que escrever é uma importante atividade sociocultural. Que a prática da escrita deve ser cultivada, pois só desta forma os alfabetizados irão aprimorar a sua habilidade de produzir textos escritos. Talvez muitas pessoas só escrevam por dinheiro, mas não creio que estes sujeitos consigam ser bons autores.
   Eu acredito que escrever, seja literatura, textos teóricos ou argumentativos  sirva, realmente, para conquistar admiração alheia, para ampliar nossa capacidade de uso do idioma pátrio, para ganhar dinheiro, pois ,como diz o preceito bíblico, todo trabalhador é digno de receber o seu sálario. Só não acredito que a literatura, a filosofia e a prosa jornalística possam salvar o mundo, porque este, coitado, precisa de reformas amplas e profundas. Talvez o que de principal traga o hábito da escrita seja o exercício de nossa individualidade.
   Um texto produzido por nós tem a potencialidade de expressar nossa visão particular do mundo. E assim contribuímos com nossa gotinha pessoal para aumentar o mar do pensamento e da literatura do Universo. Obviamente, uma produção literária ou argumentativa de um indivíduo sofre a influência, consciente ou inconsciente, de inúmeros outros textos, vivências, experiências... Mas a forma como filtramos estas influências e a transformamos em algo inédito é uma maravilha da existência. Pois ao mesmo tempo que  escutamos outras vozes, apresentamos a nossa para quem quiser ou possa  nos ouvir. Treinar a nossa individualidade é fugir do nosso destino de gado e a escrita está aí para nos auxiliar nesta tarefa.
   Pode-se dizer, e creio que muitos já o disseram, que um texto  é um tecido composto dos mais distintos fios, que seriam as intertextualidades desejadas, ou não, pelo autor. Se acreditamos que escrever, ou seja produzir textos com sinais alfabéticos, é uma atividade importante, pois então façamos como Penélope que ludibriava os pretendentes indesejáveis tecendo durante o dia e destecendo durante a noite.
   Pedindo desculpa ao Bardo cego e aos eruditos, podemos casar o mito da esposa de Ulisses com o que estávamos sustentando. Assim, o ato de produzir e desmanchar uma obra de artesanato, simboliza o caráter essencialmente "inútil" e pessoal da escrita, especialmente da literatura. Podemos comparar Penélope ao escritor, seja ele o laureado com o Nobel, ou o blogueiro desconhecido, ainda mais que as linhas de seu  bordado não são apenas suas, mas remontam a um hábito ancestral entre as mulheres, isto é,  algo que conta com a coloboração de mil e uma influências . Sua fidelidade ao cônjuge distante é um aviso aos autores, para que estes não traiam  seus princípios. Os pretendentes, que buscavam se assenhorar de Penelópe representam tudo aquilo que quer reprimir nossa criatividade, nossa individualidade, como certos produtos midiáticos, certas doutrinações religiosas ou do Estado etc. Para combater, estes que nos querem transformar em gado passivo ,penelopicamente vamos bordando e desbordando, usando de fios nossos e de outros, porém com uma combinação de elementos que será inconstestavelmente nossa. Façamos assim, esperando pelo retorno do guerreiro homérico que,  como nos explicou o sublime Bruxo do Cosme Velho, é a Sapiência.

Beleza

Um vento balança as flores
A noite se enfeita de estrelas
Os poetas fazem diamantes com palavras

Quisera escrever um poema bonito
Que balançasse as flores
E enfeitasse o vento de estrelas

Um poema bonito é capaz
De desinventar angústias
E  de levitar mentes cansadas
De dizer exatidões por meio de linhas tortas

Os relógios vomitam as horas
As estações se sucedem
Onde está meu poema bonito?

Oh Senhor, por que me abandonaste?
Se eu não sei o que me falta
Qual é a minha falha
Onde me perco
Onde peco